domingo, 1 de maio de 2016

Samba Interno

Como tudo começou?
Começou quando eu nasci e era muito nova para ter consciência que minha vida seria uma montanha russa. Naquela época lembro-me vagamente que já houveram momentos de muita tristeza e muita alegria, de desconforto, medo e insegurança por coisas aparentemente bobas, como achar que meus pais ao saírem para fazer compras nunca voltariam...Ainda criança só que mais consciente, lembro-me de ver álbuns de fotos minhas e pensava: Nossa, como me deixaram sozinha tão pequena? Eu não entendia ainda que para existir aquela foto, tinha alguém por trás de uma câmera tirando a foto, ou seja, eu não entendia que não estava sozinha. Sentir-me sozinha e abandonada desde aquela época já era um grande problema que me gerava ansiedade e tristeza. Até que o tempo passou e tornei-me adolescente...
Junto com a adolescência, veio a escola de samba na minha mente (zilhões de pensamentos, ideias e muita criação tudo junto e misturado) e um buraco negro bizarro agarrado em mim, veio achar-se feia, parecer um ET por ser a única da turma que ainda não tinha menstruado, não tinha bunda nem peito e nem beijado obviamente. Quem iria querer beijar um ET sem bunda e sem peito? Bom, esta época passou e por me achar tão feia comecei a me ver completamente distorcida e aí veio a anorexia. Eu já era magrela, e fiquei mais ainda e mesmo assim me achava bem gorda....até que meu apelido na escola virou "somália" naquela época não existia bullying, mas era bullying definitivamente, e eu boba, não entendia =/ Hoje entendo não só o bullying mas que anorexia/bulimia vieram por outros fatores (e não por me achar feia, isso já era consequência também) como insegurança, desamparo e medo. Eu queria chamar atenção, que notassem a minha existência, que eu importasse para alguém de algum jeito!
Bom, como eu não comia nada durante o dia, chegava em casa de noite esfomeada e comia o mundo, tudo o que via pela frente, sem piedade da comida ou de mim, e o que era anorexia virou bulimia e eu fui escrava disso por um bom tempo e nesta época comecei a beber muito (talvez para me libertar da escravidão na qual havia me submetido voluntariamente), nesta época tive meu primeiro beijo, primeiro namorado, minha primeira paixão, meu primeiro amor platônico e meu primeiro amor real, minha primeira decepção e frustração amorosa, tudo junto, na mesma época e a cabeça e o coração continuando uma bagunça total com a escola de samba e buraco negro sempre presentes!
Apesar de ser escrava a bebida me libertava da escravidão e do buraco negro bizarro, mas triplicava exponencialmente a escola de samba e eu era divertida, única, alegre, feliz, animada, engraçada, colorida, até o buraco negro me abraçar totalmente e ser a única saída para qualquer coisa, meu único amigo e o único que me entendia e suportava. Ainda bem que tinha total consciência que se experimentasse qualquer outra coisa o caminho seria sem volta...bom, no meio disso tudo eu era questionadora, existencialista e profunda, queria saber o porque de existirmos, de onde vínhamos, quem era Deus, o que estávamos fazendo aqui. Tinha certeza que não estávamos aqui à passeio, esta certeza sempre existiu dentro de mim e não sei de onde vinha apesar de eu não saber nada sobre isso. Então, mesmo bagunçada (às vezes animada, eufórica, sempre criativa e única, às vezes engolida pelo buraco negro) eu buscava respostas para tudo. Mesmo deprimida eu queria entender, apesar de não querer existir. Quando eufórica eu não queria saber de nada disso, tudo estava ok, certo e ótimo, eu só queria aproveitar e agradecer por estes momentos, mas o dia seguinte era sempre ladeira abaixo e passava dias deprimida e sombria. Bom, depois de muitas paixões eternas que duravam poucas semanas e términos dramáticos, e toda a mesma confusão e bagunça interna, entrei para a faculdade.
Na faculdade tudo continuou igual, a montanha russa só ficou maior e mais intensa. Dirigi inúmeras vezes completamente bêbada e vivia fraca por não comer e por colocar para fora tudo o que comia, até mesmo uma simples maçã. Apesar disso eu era divertida, a alegria da festa! Ninguém conhecia o buraco negro que me acompanhava....quando ele aparecia era só eu e ele. Até que perdi um período da faculdade por não conseguir sair da cama para viver, não queria me matar, mas não queria viver. E aí é que comecei a procurar ajuda, e a minha mãe começou a entender que a coisa era séria e me ajudou a me ajudar. Tratamos a bulimia e a depressão e em apenas seis meses já estava completamente bem! Mesmo assim a bebida ainda era uma grande companheira, ela agora me libertava das minhas questões existenciais, que não eram poucas...Depressão controlada mas a escola de samba deu uma guinada na minha mente, ansiedade nível hard core!
Bom, veio trabalho, a bebida continuava, a busca existencial também, até que veio o yoga, a meditação, o casamento e o Hare Krsna. Ufa, será que agora a escola de samba ia serenar, será que conseguiria simplesmente ser e estar, como qualquer ser humano normal, sem pensar tudo e tanto ao mesmo tempo? Bom, não...foi muito difícil ser Hare Krsna, eram muitas regras e rituais, e eu não conseguia seguir direito, o que me gerava mais ansiedade e culpa. Tentar ser zen e Hare Krsna foi bizarro, não bebia, não transava, fiquei cega, estava no 8 e agora no 80 e ansiedade chegou a níveis estratosféricos pois não tinha mais válvula de escape (zero de bebida e sexo)....e a culpa cada vez maior (por não conseguir ser Hare com tantos rituais e regras) trouxe mais ansiedade até que isso tudo culminou em pânico...e o casamento acabou e o buraco negro voltou, na verdade ele nunca foi embora, estava sempre ali, na espreita, oportunista só esperando uma brecha.
Voltar para a casa dos pais aos 35 anos foi uma derrota, ter falhado no casamento foi uma derrota, logo eu, canceriana. Tudo que sempre quis era uma casa no campo com um marido que eu amasse e que me amasse, filhos como fruto deste amor e a realização de ser mãe. Bom, nada disso aconteceu e foi uma queda bem grande e aí voltei aos psiquiatras e às terapias para juntar os cacos que restaram de mim e me reconstruir (não tinha mais esperança alguma, achava que a partir de agora seria um ser de cacos colados e nada mais) e tratar tanta ansiedade e depressão. E nada adiantava.... como sempre, os remédios faziam efeito no começo e só, e então eu parava o tratamento por conta própria. Importante dizer que no meio disso tudo, desde lá de trás, tentei de tudo, homeopatia, acupuntura, florais, ayurveda, tarô, astrologia, religiões e tantas outras alternativas, enfim, tudo para me curar, equilibrar, entender e me encontrar. Até que...
Um psiquiatra me diagnosticou sendo bipolar, e obviamente tive um baita preconceito e achei que ele não sabia de nada, eu tinha certeza que tudo era fruto da ansiedade ou depressão, eu queria que ele tratasse eficazmente isso, saí de lá e não fiz o tratamento prescrito. Continuei com minha escola de samba, minhas manias e paranoias e minha tristeza profunda que surgia no meio disso tudo sem dar aviso prévio. Até que...
Dei uma surtada um tempo depois (joguei o computador novo na parede e quase esmurrei a recepcionista de um prédio no mesmo dia, muita raiva, ira e choro, descontrole total de mim) e parei num hospital psiquiátrico e fui orientada a procurar um psiquiatra (Sério? Eu faço isso a minha vida toda e ninguém consegue me tratar, sou um rato de laboratório na mão deles!). De qualquer forma fui para mais uma tentativa de cura, diagnosticada novamente sendo bipolar, aí comecei a levar mais a sério, trabalhei meu preconceito lendo diversos livros sobre o assunto, me identifiquei, e aceitei me tratar....e tudo começou a melhorar, mas ainda não estava sensacional, cada vez que eu ia lá saía com mais um remédio a tiracolo! De qualquer forma fiquei bem melhor, a escola de samba deu uma acalmada e comecei a me sentir bem melhor, mais equilibrada, calma, porém comecei a me preocupar que eu não era mais eu, mas muito pelo contrário, pela primeira vez eu estava começando a descobrir a verdadeira pessoa que eu era. Antes é que eu não era eu, antes eu era um eu em desequilíbrio. Isso sim foi uma libertação, faz 10 meses que venho me descobrindo e me encantado comigo mesma e me aceitando e amando como nunca me aceitei e amei. Hoje minha química cerebral está equilibrada e Eu sou Eu!
Nestes 10 meses, aceitei e comecei o tratamento com este último psiquiatra até que encontrei uma psiquiatra sensacional que caiu no meu colo, um presente do universo sem dúvida, e passei a me tratar com ela e fizemos umas alterações que me deixaram melhor ainda! Também tenho feito terapia com a melhor terapeuta do mundo! Bom, estas duas mulheres e profissionais lindas (com um imenso coração pelas quais serei eternamente grata) tem me ajudado muito nesta descoberta de quem eu sou de verdade. Hoje posso dizer com total convicção que eu sou eu! Claro que ainda faltam alguns ajustes e que a caminhada é longa, mas sou tão obstinada em me descobrir que não vejo esta caminhada como problema, mas sim como libertação e uma descoberta maravilhosa =)
Apesar de ser uma grande exposição falar sobre isso, e talvez não tão divertido ou engraçado, acho que falar pode ajudar alguém, pode fazer alguém não se sentir estranho ou sozinho. Pode ajudar alguém a não ter preconceito pelo que tem, vencendo a si mesmo. Pode ajudar alguém a se aceitar, se curar e se amar.
Rossana Beck

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